Por Gabriel Fornazari e Mayara Pontes

De acordo com o dicionário, a palavra “judeu” significa aquele que segue o judaísmo, religião do povo hebreu cujo livro sagrado é o Torá. Qualquer pessoa da raça hebraica; israelita. Indivíduo natural da Judeia.

Segundo a Confederação Israelita do Brasil (Conib), para um indivíduo ser considerado judeu ele precisa preencher um dos dois requisitos: ter nascido de mãe judia ou se converter e se tornar um judeu. Para que seja realizada a conversão, é preciso seguir as condições da Halachá (a lei tradicional da Torá), o que inclui circuncisão (para homens), aceitar todos os mandamentos da Torá, dentre outras condições que são supervisionadas por um BetDin, que é um Tribunal Judaico, no qual o candidato a conversão passa por avaliação para saber sobre seus conhecimentos acerca do Judaísmo e se está apto a continuar o processo.

Conforme a própria tradição judaica, o povo judeu originou-se de Isaque, filho de Abraão, nome muito conhecido na religião cristã e islâmica. Eles eram um povo semita, assim como outros povos do oriente médio, porém, com o passar dos anos, foram se misturando e se inserindo em várias comunidades ao redor do mundo.

Segundo dados da Conib, o Brasil ocupa o 10º lugar no ranking de comunidades judaicas no mundo, sendo a segunda mais importante da América Latina, com cerca de 120 mil judeus.

As vertentes do judaísmoGABRIEL FORNAZARI hoje 2

Casamento tradicional ultraordoxo, onde a noiva precisa ficar com o rosto completamente coberto até que os rituais se completem

Na história, o judaísmo basicamente se dividiu em três vertentes: a ortodoxa, a conservadora e a reformista. Isso ocorreu com o tempo e com as diversas mudanças políticas, sociais e econômicas sofridas pela comunidade judaica. As correntes sofreram um grande impacto entrando na era moderna, algumas se deixando levar pela modernidade, outras se opondo aos tempos e se atendo aos costumes antigos.

Os ortodoxos, do tipo mais antigo, são os que seguem a risca todos os ensinamentos da Lei Judaica, conhecida como Halachá. Eles se prendem no tradicionalismo, e acreditam que os costumes mais antigos não devem ser abandonados com o tempo.

A comunidade ortodoxa é muito mais restrita e conservadora, ainda mantendo em seu meio o costume de dividir o papel do homem e da mulher na sociedade. Além de que, os membros dessa onda do judaísmo geralmente se prendem a língua hebraica até os dias de hoje, acreditando que ela é um dos pilares de sua cultura e religião.

Essas comunidades se restringem muito mais aos chamados “guetos”, que são pequenos círculos de convívio somente de pessoas adeptas ao braço ortodoxo do judaísmo. Os membros então são educados seguindo a risca o Torá, com divisões claras de gênero na sociedade, e restringindo muito o crescimento e aprendizado de suas crianças. Para os ortodoxos, o Torá foi um livro revelado por Deus, e por isso não pode ser alterado, devendo se manter sempre em sua integralidade, protegendo as tradições antigas.

Já a reformista bate muito de frente com a ortodoxa, acreditando em uma religião mais abrangente e livre, que muda e evolui com o tempo. Segundo os reformistas, a religião deve se manter presa apenas nos aspectos religiosos, da fé, e não envolver grandes fatores sociais.GABRIEL FORNAZARI foto 3

Mulheres de uma comunidade judaica reformista que rezam no Muro das Lamentações juntamente com os homens

As comunidades reformistas atualmente são muito mais receptivas, seguindo alguns mandamentos, mas não necessariamente sendo adeptos dos hábitos religiosos mais antigos, como o uso do hebraico como língua dominante e a restrição de seus membros aos guetos. Essa onda do judaísmo surgiu no século XIX, na Alemanha, e vem evoluindo com o tempo desde então.

A onda conservadora pode ser considerada um meio termo entre os ortodoxos e os reformistas, sendo criada para apresentar esse “encontro” entre as duas vertentes. Enquanto os conservadores vão de encontro com os ortodoxos em algumas crenças sobre as origens da religião e diversas crenças da Terra Santa, eles também se adaptaram mais com o mundo moderno, igualando os papéis de gênero dentro das comunidades e flexibilizando algumas práticas mais antigas e tradicionais da religião, assim como os reformistas.

No entanto, os conservadores são opostos a diversos pontos levantados e defendidos pelos reformistas, e se prendem muito mais a costumes antigos ligados a fé e a religião. Eles também não prendem seu convívio apenas em comunidades judaicas, assim como não são adeptos ao hebraico como língua oficial, o que os afasta um pouco mais dos ortodoxos.

“Não é tão comum, mas também existem pessoas que transitam de uma vertente para a outra, indo de ortodoxos para conservadores, ou então para reformistas, e o contrário também acontece. Hoje em dia existe muito essa mescla das vertentes, e isso se da muito pela globalização”, relata Hugo*, membro de uma comunidade judaica conservadora brasileira.

O judaísmo atualmente

**arquivo**SÃO PAULO, SP, 26.05.2019 - Manifestação a favor do presidente Jair Bolsonaro, na avenida Paulista, em São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
**arquivo**SÃO PAULO, SP, 26.05.2019 – Manifestação a favor do presidente Jair Bolsonaro, na avenida Paulista, em São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

O judaísmo é a religião monoteísta mais antiga do mundo, tendo surgido em meados do século XVII a.C. Para os judeus, o livro sagrado é o Torá, e eles consideram Javé, ou Jeová, o criador do universo. Na história, a crença judaica evoluiu e se modificou com o tempo, assim como seus adeptos foram afetados por acontecimentos históricos.

Nos dias de hoje, o país que apresenta o maior número de judeus fora de Israel (que apresenta a maior população judaica do mundo) é os Estados Unidos. Mais de 5,7 milhões de judeus se concentram em solo americano, segundo dados da Associeted Press, e a grande maioria deles se espalha pela cidade de Nova York, que apresenta bairros 100% judeus, assim como alguns guetos povoados pela parcela ortodoxa dos membros.

Já no Brasil, a comunidade judaica ainda é expressiva, mesmo que não seja tão numerosa quanto nos EUA. Sendo uma comunidade de 120 mil membros, grande maioria dos judeus que vivem em solo brasileiro é descendente de povos que se estabeleceram no país já tem muito tempo, alguns já há mais de 100 anos. “Aqui no Brasil a maioria dos judeus estão no sul e sudeste como imigrantes recentes que fugiram do nazismo, ou então no nordeste, que vieram para cá no período colonial”, conta a estudante Lorena*, membro de uma das comunidades judaicas reformistas brasileiras.

Em Curitiba (PR) é possível encontrar duas congregações diferentes, a ortodoxa dos Chassídicos e a secular que fica junto ao Centro Israelita do Paraná (CIP) e da Escola Israelita, conforme conta o redator André Osna, que frequentou a secular até os 15 anos e resolveu se desligar da congregação quando saiu da Escola Israelita, por não se considerar uma pessoa muito religiosa.

Assim como muitas religiões antigas, algumas tradições foram se modificando ao longo do tempo, no judaísmo muitas práticas foram extintas, como o sacrifício de animais e outras permanecem até os dias atuais, como a alimentação kosher, que são as leis do que pode ou não comer. “Teoricamente surgiram para evitar doenças comuns em tempos antigos, mas por questões religiosas (os judeus) seguem não comendo certos alimentos, mesmo que não sejam prejudiciais”, explica André.

Judaísmo na mídia e como a religião é retratada

Na mídia, encontram-se diversas representações de judeus nas mais diversas formas, especialmente em conteúdos norte-americanos. Séries, filmes e livros são produzidos aos montes retratando a cultura judaica, e muitos deles feitos por pessoas das comunidades, mas nem todos eles são bem recebidos.

A série “Nada Ortodoxa”, da Netflix, foi aclamada pela crítica e até mesmo premiada com o Emmy de melhor roteiro de uma minissérie. Nela, é contada a história de Esther, uma garota que nasceu e cresceu em uma comunidade judaica ultraortodoxa em Nova York, e que um dia decide se desprender da sua cultura e viver livre no mundo. Nos quatro episódios vemos a comunidade ser retratada como um local de religião e fé levado ao extremo, o que muitas vezes resultava em opressão.

A forma extrema como a comunidade ortodoxa foi retratada na série não agradou alguns grupos de judeus, que boicotaram a série ou se negaram a assisti-la. “Parte da minha família segue a religião ortodoxa, e virou praticamente um crime comentar sobre a série ‘Nada Ortodoxa’. Ninguém aqui gostou nada da forma como eles retratam os judeus”, comenta a estudante Maria*, membro de uma comunidade judaica ortodoxa brasileira. “A galera já é tão preconceituosa com a gente, que esse tipo de produto somente piora a situação. A crítica faria muito mais sentido se tivesse saído de dentro da comunidade”, completa Lorena*.

O assunto de religião é comumente espinhoso quando tratado na mídia no geral, e é alvo de críticas até mesmo quando vem de membros da comunidade. Um artigo do jornal The New York Times publicado no início de 2019 critica completamente a série “The Marvelous Mrs. Maisel”, da Netflix, criada, escrita e dirigida por Amy Sherman-Palladino, que é judia.

No artigo, o autor cita que Sherman-Palladino apresenta diversos desserviços na série, principalmente por insistir no uso de estereótipos e cenas que mais ridicularizam a cultura judaica do que a homenageiam. A série cômica conta a história de Miriam Maisel, uma mulher na casa dos 30 anos vinda de uma família judaica conservadora que decide virar comediante depois que descobre uma traição do seu marido.

Porém, a representação dos judeus na mídia atualmente ainda segue mais aproximadamente as crenças dos reformistas, que visam abrir os horizontes da religião e se tornarem mais receptíveis. “Um modo fácil, e interessante, de se identificar os reformistas é perceber os detalhes. Eles aceitam mulheres rabinas e pessoas da comunidade LGBT+ dentro das sinagogas, por exemplo, e isso se reflete muito em conteúdos de entretenimento feito pelas pessoas vindas de comunidades reformistas, que são as maiores do mundo”, explica Lorena*.gabriel fonazari foto 5

Alina Treiger, primeira mulher a ser ordenada rabina desde o Holocausto

 

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25 thoughts on “O judaísmo no mundo moderno: como a religião milenar encara os novos tempos?”
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