Por: Eduardo Vaz

Foi com os fortes raios de sol batendo na janela que eu acordei naquela bela manhã de final de primavera. Senti a luz tomar o quarto de dormir mesmo com os olhos fechados. Bocejei, espreguicei, confesso que até blasfemei um pouco em pensamento porque imaginava dormir até meio-dia em um domingo de folga. Oras! Será que o relógio já estaria marcando doze horas? Com um sobressalto abri os olhos, ainda tomados de remelas que pediam para se manterem em inércia, e tive a certeza. Pela claridade, havia dormido o planejado e sequer descansado o corpo e a mente. Em outros tempos buscaria meu relógio de pulso ou um tradicional rádio relógio – objeto estranho que, hoje em dia, conversa com os jovens e atende pelo nome de Alexa. De qualquer forma, busquei pelo celular. Eram 5h05 da madrugada. Impossível não blasfemar um pouco mais!

Seria o fim dos tempos? O apocalipse chegando antes de um novo profeta? Teorias conspiratórias à parte, apenas uma mudança no eixo de inclinação da Terra em direção ao Sol fazendo com que os dias clareiem antes do previsto. A quem poderia interessar o dia acordar antes mesmo do meu vizinho cantar o tradicional ‘cocoricó’? A um enfermeiro depois de um longo plantão noturno? A um corredor que precisa treinar 12 quilômetros as quatro da madrugada? A uma dona de casa que precisa dar conta dos filhos, do marido, do lar e das refeições de todos antes de ir trabalhar? Bem… A mim, não! E a explicação é simples. Nascido em 1987, ano em que Piquet ganhava o tri campeonato na Fórmula 1 e Drummond de Andrade partia para uma nova jornada, nunca tive problemas com dias começando às cinco da matina porque ele estava lá: o horário de verão, alongando meus dias e também minhas noites.

Bandeira central de um cabo de guerra entre os adoradores e aqueles que juram que ele não presta, o horário de verão acontece em diversos países do mundo. No Brasil, surgiu pela primeira vez em 1931, num eterno vai e vem em berço esplêndido. Porém, de 1985 a 2018 ele esteve lá, firme e forte, sempre ao final da primavera e terminando pouco antes do início de cada outono em alguns estados brasileiros. Mas foi em 2019 que o presidente Jair Bolsonaro resolveu ‘canetear’ o fim dele. Os motivos? Segundo o Planalto, a mudança não impacta significativamente no consumo de energia devido aos novos hábitos e à rotina dos brasileiros. Confesso que não sei o que seria significativamente nas contas de energia lá nos ares de Brasília, mas na minha qualquer ‘dez real’ a menos já é um suspiro a mais no fim do mês e um a menos na padaria.

E veja você! Até mesmo a tecnologia, essa que leva turistas ao espaço  e produz vacinas inovadoras em menos de um ano, acabou trolada pelo ‘canetaço’. No dia 7 de novembro de 2021, dia em que os relógios deveriam ser adiantados em uma hora devido ao horário de verão, não é que eles foram alterados mesmo assim? Milhares de brasileiros acostumados com a hora automática nos celulares, de repente, não sabiam se viviam a meia-noite ou a uma da manhã. Somente aqueles que ainda carregavam o bom e velho relógio analógico, desconectado do mundo, tiveram a quase certeza da hora certa. Certo, mesmo, somente o meu descontentamento.

Sem entender aqueles que ainda discutem se, no início do horário de verão, é preciso adiantar ou atrasar o relógio, retrocesso mesmo é desconsiderar algo que, em grande ou pequena escala, mexe, sim, com a economia. Comerciantes, inclusive que protestaram pedindo o retorno da mudança, vendem mais. Turistas passam mais tempo em pontos de visitação. Com represas com baixos níveis de água e termoelétricas em plena atividade, qualquer redução, mesmo que mínima no consumo de energia, ainda sim é uma redução. Por fim, aqueles que indicam o relógio biológico como principal motivo contra a mudança, poderiam apontar alguém que tenha sofrido grandes consequências (e definitivas) por conta da mudança? Até hoje conheci somente pessoas que se adaptaram a ela após alguns dias.

O que consola é saber que precioso, mesmo, é o tempo sem hora. Aquele que você passa com a família em um jantar agradável (sim, é possível, acredite!), numa mesa jogando papo fora com os amigos ou até mesmo trabalhando em um projeto que te agrada (também é possível!). Tempo que passa e não se vê, mas se sente. Seja no inverno ou no verão. Tudo bem! Eu adoraria acordar com a luz natural do dia uma hora mais tarde. Adoraria uns reais a mais economizados na conta de energia e até ter uns raios me esperando para aquela corrida ao final do dia – sem ela, sem corrida! Até lá, um passo atrás do outro, um dia após uma noite, bem ou mal dormida, e rumo a 2022. Onde vamos chegar ainda não sei, mas não vejo a hora!

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By admin

20 thoughts on “Crônica de um tempo sem hora”
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